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Esbocando Uma Critica Anarquista A Pornografia

esboçando uma crítica anarquista (?) à pornografia

porque falar mais uma vez sobre pornografia? não sei se esse é um tema muito bem aceito/entendido pelas pessoas em geral. vou tentar uma abordagem diferente... será que consigo?

bem, queria começar alertando que esse não é um texto contra o sexo, talvez seja um texto contra um sexo esteriotipado, fixo, normativo e normalizante. acredito que a pornografia tem papel essencial na normatização de nossos desejos, penso que, tanto quanto uma novela, um filme qualquer, ela não é isenta de ideologia e mostra um sexo permeado por noções de hierarquia, dominação, consumo. muitas pessoas já me fizeram a pergunta: “mas de que pornografia você está falando?” e minha resposta normalmente é “da pornografia tradicional...” mas hoje minha resposta é diferente: “que tipo de pornografia você pensa que foge (e que realmente foge, ok?) desse modelo?” (e quem quiser responder essa pergunta e instaurar um diálogo saudável sobre o assunto, escreva pra mim). eu acredito que há poucas, e realmente queria conhecê-las, porque até hoje não tive contato com elas...

querendo determinar melhor o que chamo de pornografia, vou incluir sob esse nome aquelas representações do sexo que partem de, ou geram, uma relação comercial; ou seja, aquele vídeo que você filmou com seu/sua parceir* não serve aqui, ok? talvez essa representação do sexo seja melhor, mais próxima da realidade, mais apelativa pra mim (e pra quem mais sente-se sub-representada pela pornografia tradicional), porém ela não está dentro do que eu chamaria “pornografia”; isso porque acredito que a lógica com a qual a pornografia funciona é uma lógica capitalista, por excelência, ou se não, uma que reforça e corrobora o ciclo de dominação do capital. é bom lembrar que em nossa sociedade ocidental e capitalista, os corpos femininos - como fonte do trabalho exclusivamente feminino de produção/manutenção de mão de obra - são alienados (assim como o trabalho de um operário, na terminologia de marx); as mulheres não só não tem o poder sobre seus corpos - que é delegado aos homens – como também são elas mesmas moeda para troca entre eles. não tendo controle sobre seus corpos a sexualidade feminina passa a ser vista em função do prazer masculino e parece que é justamente isso que a pornografia reforça;

voltando então para o meu problema com a pornografia: um dos principais problemas é a faceta “educadora” da pornografia; muitas pessoas, muitas feministas, inclusive, elogiam essa face da pornografia, mas eu acredito que ela é particularmente problemática. sendo uma das poucas formas de termos acesso ao que é sexo, como funciona, etc (pra muitas pessoas é a única fonte de informação), a pornografia conforma o sexo real no que eu chamaria de “forma tradicional de se fazer/entender o sexo”. é uma forma não só estereotipada, mas hierárquica, onde o prazer feminino é representado de uma forma muito complicada: a mulher “goza” de um jeito estranho (na verdade seria melhor dizer apenas que ela geme) a maior parte do tempo, sem muitas preliminares, sem muitos cuidados; é bom lembrar que cada filme é cuidadosamente feito e só as partes “interessantes”, para aquele que compra, é que são mostradas, isso significa que a maior parte do filme estará centrada na penetração; mostrar a penetração cruamente, com closes e etc, não é esse o problema aqui, o problema é que o filme mostra que é tudo bem simples, é “chegar chegando”, sem cuidados com lubrificação, nem nada.

vendo um filme desses bem idiotas, de sessão da tarde, chamado “porn n´chicken” achei um bom exemplo do que quero dizer: entrevistando uma atriz pornô *s protagonistas do filme (que, aliás pensam estar fundando um movimento revolucionário, por montarem um grupo de pessoas que assistem pornografia e comem frango frito as quintas a noite) perguntam se ela gosta/se orgulha de seu trabalho e ela diz que é uma felicidade dar dicas de como obter mais prazer, ou de como fazer um sexo mais seguro, etc. e dá um exemplo de suas dicas: “nunca usem lubrificante, apenas cuspe!” – é claro que o exemplo aqui é bem forçado, porque faz parte do tom irônico do filme, mas é assim que aparentemente funciona. a pornografia ensina o quê e para quem? essas são perguntas importantíssimas. porque parece que ela ensina coisas que para mim se enquadram ainda na mentalidade de sexo para o prazer masculino única e exclusivamente, porque a mulher que goza o tempo inteiro, porque para o homem é excitante ouvir seus gemidos - sejam eles de dor ou de prazer.

voltando ao outro problema central que é a questão do capital:a indústria da pornografia está preocupada não em promover bem-estar, em educar melhor as pessoas para o sexo, ou qualquer outra dessas coisas. ela está preocupada com o que vende e o que não vende. e, como na indústria cinematográfica, o que vende é o que está devidamente conformado às formas tradicionais de pensar e agir; é o que faz relaxar, entretem, diverte e promove um relativo esquecimento dos problemas e pressões da vida. assim é com o filme pornográfico;

a pornografia não representa uma quebra com os valores tradicionais. apesar de muit*s acharem que a simples representação do sexo já é revolucionária, é bom lembrar que sexo é quase um supra-tema em nossa sociedade. não é a simples explicitação do sexo que poderia tornar a pornografia revolucionária, senão a novela da globo seria de esquerda (hehehe). precisa muito mais pra ser tida como revolucionária: precisa pelo menos ser uma representação que desmanche as marcações de gênero fortemente delimitadas... tem que ser pelo menos uma representação que questione os papéis de gênero, ou as próprias categorias, ou as práticas tradicionais. ou que pelo menos tenha corpos não inseridos no padrão de beleza sacramentado. se bem que isso também é complicado; acho problemático a forma que corpos totalmente fora do padrão são sexualizados, tidos como “bizarros”, passam a fazer parte de um desejo estranho; ou como mulheres consideradas fora do padrão são ultra-sexualizadas e isso se torna mais um lugar de opressão; estou pensando aqui em como os meninos de classe média costumam iniciar-se sexualmente com suas empregadas, que eles mesmos consideram feias (porque não-brancas, porque não-magras, poque não-louras) mas como que numa herança do escravismo, servem para saciar-lhes o desejo.

não consigo ver a pornografia como desligada das formas tradicionais muito arraigadas de ver/pensar/fazer sexo. gostaria de poder dizer que a pornografia funciona como transformadora dessa realidade, mas, ao contrário, vejo ela funcionando como mantenedora das estruturas de dominação capitalistas e masculinistas sobre as mulheres.

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Pagina modificada em 15 de April de 2008, às 13h53